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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Famílias traumatizadas por bombardeios se recusam a sair da zona de guerra na Ucrânia

 

 Um policial se desespera quando uma mulher recusa deixar a cidade de Lysychansk, próxima à zona de batalha na Ucrânia, com os dois filhos. Alguns minutos antes, projéteis atingiram edifícios na cidade industrial, destruída pela guerra. 

O policial Viktor Levshenko, exasperado, aponta para o céu e tenta convencer Angelina Abakumova a entrar em um carro blindado. 

O veículo deve transportar a família para uma área um pouco mais segura da Ucrânia, passando por posições da artilharia russa. 

— Sério, me diga o que você ainda está fazendo aqui com as crianças Você entende que esta é uma zona de guerra? — pede o atleta profissional, que virou chefe da polícia de tráfego regional. 

A mulher de 30 anos escuta em silêncio e permanece firme. Mas Levshenko prossegue e afirma que ela pode morrer com os filhos. 

Sua presença, explica, prejudica os esforços da Ucrânia, porque o exército tem que se concentrar nos civis, e não em combater os russos. 

Diante da insistência da mulher, ele desiste. — Vamos retornar amanhã e espero vê-la pronta com as suas coisas. 

As crianças devem ser levadas para um local seguro — afirma o policial. Mas ela diz que não vai mudar de ideia. — Agora é perigoso aqui. 

Depois as coisas mudam e fica perigoso em outro lugar. Qual o sentido de ir e voltar? — questiona Abakumova. 

Como Abakumova, alguns civis no leste da Ucrânia decidiram permanecer em suas casas, entre bombardeios incessantes das tropas russas e com a esperança de que a guerra termine. 

Entre as razões para permanecer estão a falta de dinheiro para começar uma nova vida em outra cidade e o medo de perder a casa. 

Mas as justificativas não convencem Levchenko. — Acho que as pessoas não entendem a situação completa. 

Temos que evitar os bombardeios e abrir passagem em condições muito difíceis para chegar a estas pessoas, alimentá-las e tentar retirá-las de suas casas. 

As pessoas que estão aqui pensam que tudo vai ficar bem — afirma o homem, de 33 anos. 

Os voluntários que distribuem alimentos nos refúgios calculam que dos 100.000 moradores de Lysychansk, quase 20.000 ainda tentam sobreviver na cidade, cercada. 

Não há energia elétrica nem serviço de telefonia. O abastecimento de água está cortado desde abril e nos próximos dias deve acontecer a interrupção do fornecimento de gás. 

Os civis que ainda caminham pelas ruas da cidade parecem quase alheios aos disparos de foguetes e artilharia das unidades russas que tentam isolar a cidade do restante da Ucrânia. 

Quando o aposentado Volodymyr Dobrorez acordou, ele contou mais de 30 impactos de artilharia perto de uma ponte que segue até Severodonetsk, uma cidade vizinha agora sob controle parcial da Rússia. 

— Os últimos três dias foram particularmente ruins — disse o homem de 61 anos. 

Muitos dos que permanecem na cidade compreendem, no entanto, que sua vida nunca mais será igual a como era antes da invasão russa, em 24 de fevereiro. Abakumova disse que teve que pesar o destino de seus filhos com o de seu marido e irmão.

— Os homens em idade de combate são convocados imediatamente e enviados à frente de batalha como bucha de canhão. Não vou deixar meu marido e o irmão dele partirem. Eles morreriam no primeiro dia — afirma, enquanto o filho e a filha brincam no chão do bunker.

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