Um capítulo imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições

O primeiro diploma superior que Lula recebeu na vida foi de presidente da República em 2002.
O segundo, em 2006, de presidente. E o terceiro,
logo mais à tarde, outra vez de presidente da República. Ele diz que não
será candidato à reeleição daqui a quatro anos. Mas se fizer um bom
governo, poderá ser.
O
de hoje é o segundo dos três atos magnos do rito democrático no Brasil.
O primeiro aconteceu em 30 de outubro passado, quando foi eleito no
segundo turno o 39º presidente da República do Brasil. Lula ganhou com
50,9% dos votos válidos. O terceiro ato magno será no próximo dia 1º de
janeiro quando ele tomará posse.
Desde
a redemocratização do país em 1985, somente um presidente negou-se a
transferir a faixa ao seu sucessor, escafedendo-se pela porta dos fundos
do Palácio do Planalto – João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último
do ciclo dos generais da ditadura militar de 64 que suprimiu a
democracia por 21 anos.
A democracia foi suprimida sob a esfarrapada desculpa de que o comunismo a ameaçava. O presidente eleito Tancredo Neves baixou ao hospital na véspera de ser empossado. Figueiredo recusou-se a passar a faixa ao vice, José Sarney, porque não gostava dele. Na verdade, foi embora por uma porta lateral.
Filhote
da ditadura, afastado do Exército por ter planejado atentados
terroristas a quartéis, Bolsonaro quer repetir o gesto de Figueiredo que
não fez nenhuma diferença para Sarney. O general recolheu-se ao seu
sítio em Petrópolis, reformado de graça por empreiteiras que prestaram
serviços ao governo.
Bolsonaro terá
melhor sorte: a seu pedido, o PL, partido ao qual se filiou para
disputar a reeleição, pagará o aluguel da mansão onde ele pretende morar
em Brasília, a montagem de um amplo escritório de trabalho, e suas
despesas com viagens. Figueiredo pediu para ser esquecido, e foi.
Bolsonaro quer ser lembrado.
Figueiredo
deve ser lembrado por três importantes decisões que tomou: deu
continuidade à abertura política inaugurada por seu antecessor, o
general Ernesto Geisel; proclamou a anistia que permitiu a volta ao país
de exilados políticos; e respeitou o resultado da eleição pelo
Congresso da dupla Tancredo-Sarney.
Pelo que Bolsonaro quer ser lembrado? Por
legar um país com o triplo das armas que tinha no início de 2019? Por
receitar cloroquina contra uma pandemia que matou quase 700 mil
brasileiros? Por enfraquecer a democracia como nenhum presidente o fez?
Por estimular um golpe às vésperas de sair?
O
Brasil escapou de uma nova era de obscurantismo ao impedir a reeleição
de Bolsonaro. Como estaríamos a essa altura? Com ele a cobrar do
Congresso o expurgo de ministros do Supremo Tribunal Federal? “O
patriotismo é o último refúgio do patife”, disse no século XVIII o poeta
e ensaísta inglês Samuel Johnson.
Na
semana passada, ao quebrar um silêncio de quase 40 dias, Bolsonaro
exaltou os golpistas acampados à porta de quartéis à espera da fala das
armas. Depois, ao chorar abraçado a um menino e diante de devotos que
cantavam o Hino Nacional, Bolsonaro não chorou pelo Brasil, mas por ele
mesmo e seus filhos.
Chega ao fim o
turbulento reinado da primeira família presidencial brasileira, capítulo
imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições.
Metrópoles
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