Distribuição do recurso foi batizada pelos próprios sócios de “Matemática de Mossoró”. Na casa de um deles, investigadores encontraram dinheiro em caixa de isopor

Interceptações realizadas pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Mederi mostram sócios de uma distribuidora de medicamentos discutindo a possível distribuição de propina para diversos agentes – entre eles, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), pré-candidato ao Governo do Estado.
Em uma das conversas captadas pelos investigadores, sócios da empresa Dismed afirmam que Allyson Bezerra teria acesso a um repasse de R$ 60 mil, equivalente a 15% de um contrato de R$ 400 mil. A distribuição do recurso foi batizada pelos próprios sócios de “Matemática de Mossoró”.
As conversas envolvem diretamente os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, sócios ligados à Dismed. Em um dos áudios, eles discutem um contrato de R$ 400 mil com a Prefeitura de Mossoró e detalham como apenas parte dos produtos seria efetivamente entregue.
“Olhe, Mossoró, eu estudando aqui… como é a matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil (R$ 400 mil). Desses quatrocentos, ele entrega duzentos (R$ 200 mil)! Tudo a preço de custo! Dos duzentos, ele vai e pega trinta por cento (30%). Então, aqui ele comeu R$ 60 mil. (…) Fica cento e quarenta (R$ 140 mil). Ele ganha setenta (R$ 70 mil) e sessenta é meu (R$ 60 mil). Só que, dos cento e trinta (R$ 130 mil), nós temos que pagar cem mil (R$ 100 mil) a Allyson e a Fátima, que é dez por cento (10%) de Fátima e quinze por cento (15%) de Allyson. Só ficou trinta mil (R$ 30 mil) pra empresa!”, disse Oseas Monthalggan e Moabe em maio de 2025, em diálogo captado pela PF.
Segundo a PF, com base nesse e outros áudios, o esquema funcionaria da seguinte forma:
Da ordem de compra de R$ 400 mil, R$ 200 mil dos produtos seriam entregues oficialmente.
Dos R$ 200 mil que não serão entregues, os empresários citam que:
- R$ 100 mil seriam de propina, sendo R$ 60 mil desses para Allyson Bezerra, o que significaria 15% do total do contrato;
- R$ 70 mil seriam de comissão dos sócios;
- R$ 30 mil seriam das empresas.
Outros percentuais também aparecem nos diálogos. Além disso, uma mulher chamada Fátima também é citada – ela ainda não foi identificada pelos investigadores, mas faria parte da engrenagem de distribuição de propina.
A PF descreve esse arranjo como um modelo fixo de retorno financeiro, aplicado de forma sistemática sobre os contratos públicos da Dismed com órgãos públicos. Os investigadores sustentam que os valores eram viabilizados por meio de superfaturamento, notas fiscais frias e entregas parciais de medicamentos e insumos médicos, pagos integralmente pela Prefeitura, mas não recebidos na rede pública.
A investigação aponta que os pagamentos de propina eram realizados majoritariamente em dinheiro vivo, para evitar rastreamento bancário. A decisão judicial registra que Oseas Monthalggan foi flagrado realizando saques de cerca de R$ 49 mil em agências bancárias de Mossoró para viabilizar os repasses em “cash”.

Operação Mederi
Os áudios foram usados pela Polícia Federal para deflagrar, nesta terça-feira 27, a Operação Mederi. A ação, realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), tem o objetivo de desarticular um suposto esquema criminoso voltado ao desvio de recursos públicos e a fraudes em procedimentos licitatórios.
Ao todo, os agentes saíram às ruas para cumprir 35 mandados de busca e apreensão no Estado, além da adoção de medidas cautelares e patrimoniais determinadas no âmbito da investigação. Segundo o último balanço divulgado pela PF às 18h, foram apreendido ao todo: 33 celulares, 34 dispositivos eletrônicos (notebooks, HDs e tablets), 4 veículos, 117 documentos e R$ 251 mil em espécie.
Parte do dinheiro apreendido foi encontrado em uma caixa de isopor na casa de Oseas, um dos sócios da Dismed.
O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, foi um dos alvos. Da casa dele, os agentes levaram um celular, dois HDs e um notebook.
Além de Mossoró, as fraudes teriam ocorrido em outros cinco municípios potiguares: José da Penha, São Miguel, Serra do Mel, Paraú e Tibau. Mandados foram cumpridas nessas cidades e também em Natal e Upanema.
De acordo com a PF, a operação tem como base auditorias realizadas pela CGU. Documentos do órgão apontam falhas na execução contratual, incluindo indícios de compra de materiais que não foram entregues, fornecimento inadequado de insumos e sobrepreço nos contratos analisados.
AGORA RN
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